quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

São Paulo, o santo que fez do cristianismo uma religião

 Edison Veiga

De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

 CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Tela representando São Paulo, de autoria de Valentin de Boulogne

Naquela carta que pode ser considerada a certidão de nascimento da maior metrópole brasileira, o padre jesuíta José de Anchieta (1534-1597) escreveu sobre 25 de janeiro de 1554: "Celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do apóstolo São Paulo e, por isso, dedicamos a ele nossa casa".

Foi assim que a base daqueles missionários religiosos no planalto de Piratininga foi batizada com o nome do santo. Com o tempo, o nome seria emprestado à vila — São Paulo dos Campos de Piratinga —, até se tornar a denominação da cidade.

Quase que um acaso, poderia se dizer. Fosse outro dia, seria outro santo o homenageado, afinal a praxe do catolicismo de então era recorrer sempre ao santo do dia na hora das nomenclaturas.

Um feliz acaso, diriam os estudiosos do cristianismo. Porque se a cidade que comemora o 468º aniversário nesta terça (25) se tornou uma das mais importantes do mundo, este cidadão romano chamado Paulo que viveu 2.000 anos atrás também pode ser chamado de protagonista.

Não fosse Paulo, prolífico escritor do seu tempo, empreendedor de diversas viagens missionárias, perspicaz na resolução de conflitos e hábil em organizar e sistematizar o conhecimento, o cristianismo não teria se tornado uma religião — ao menos não uma religião tão importante, sobretudo para o Ocidente.

"Ele foi, sem dúvida, o primeiro grande teólogo do cristianismo", afirma o religioso Darlei Zanon, filósofo e teólogo, conselheiro da Società San Paolo, em Roma. "E ainda hoje pode ser considerado um dos maiores teólogos da história do cristianismo, porque as bases [que ele fundamentou] ainda são estudadas."

"Mais do que teólogo, diria que foi um grande pastoralista, porque ele dava respostas concretas às questões pastorais, da sociedade, daquelas primeiras comunidades cristãs. Assim, vejo-o como um teólogo prático, um pastor, já que suas cartas tentavam dar respostas concretas aos problemas de moral, de liturgia, de correção fraterna, de liderança…", enumera.

Nascido em Tarso, na atual Turquia, por volta do ano 5, ele se chamava Saulo. Cidadão romano, tornou-se um oficial encarregado de perseguir cristãos naqueles tempos em que, logo após a morte de Jesus, os primeiros seguidores de seus ensinamentos precisavam agir na clandestinidade.

Conforme relatos bíblicos constantes do livro Atos dos Apóstolos, foi em uma dessas missões que ele viveu uma experiência mística decisiva. Segundo o texto, depois corroborado pela tradição, o oficial estava saindo de Jerusalém a caminho de Damasco, onde deveria buscar prisioneiros para serem interrogados e, muito provavelmente, executados.

Sua jornada, então, teria sido interrompida por uma luz ofuscante, seguida de uma voz divina. "Saulo, Saulo, por que me persegues?", teria ele ouvido. "Quem és, Senhor?", foi sua resposta, atônito. "Eu sou Jesus, a quem tu persegues." 

CRÉDITO,FILIPE DOMINGUES/ LAY CENTRE

Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma

A partir desta experiência, Paulo resolveu mudar de lado. Deixou de perseguir cristãos para se tornar um deles. "Essa narrativa é uma espécie de rito de passagem, a mudança de perseguidor para perseguido", analisa o estudioso de hagiografias Thiago Maerki, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos.

E, num simbolismo de mudança de vida, adotou novo nome. Saulo passou então a ser Paulo.

Mais do que seguidor do cristianismo, tornou-se um protagonista da evangelização. Fundou comunidades, com as quais mantinha contato frequente por cartas, e sistematizou os ensinamentos de Jesus de forma a consolidar, além de uma doutrina, uma religião.

"Não fosse Paulo, talvez hoje não conheceríamos Jesus. Ao menos não o cristianismo como temos hoje", afirma Maerki. "Os escritos de Paulo e toda a reverberação posterior foram de fato uma espécie de raiz do cristianismo."

Uma teologia a partir da experiência

Vice-diretor do Lay Centre em Roma e doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, o vaticanista Filipe Domingues atenta para o ponto de que a teologia de Paulo "parte de uma experiência. "É importante frisar isso, porque antes de procurar entender o que é a fé cristã ou racionalizar sobre ela, os seguidores de Cristo, principalmente os primeiros, partiram de uma experiência de fé. No caso de Paulo, foi a conversão, que o tornou o maior anunciador", comenta ele.

"Nesse sentido, não se trata de um processo racional, político ou metódico, simplesmente. Ele teve uma experiência radical, fez uma interpretação e, a partir dali, começou a anunciar", complementa o vaticanista.

A importância é tamanha que a Igreja Católica, cujo costume mais frequente é celebrar como data festiva de um santo o dia da morte do mesmo, reservou para Paulo duas efemérides: enquanto o 29 de junho marca seu martírio, o 25 de janeiro recorda o episódio de sua conversão.

Ambas as datas, diga-se, foram inventadas a posteriori, pois não há registros precisos que atestem a exata ocorrência desses episódios. Segundo pesquisas de Maerki, a festa da conversão de Paulo começou a ocorrer na região da Gália, hoje França, no século 6. Em Roma, ela só começou a aparecer 500 anos mais tarde.

Fato é que mesmo não tendo convivido com Jesus vivo, Paulo acabou assumindo um papel importante no grupo dos primeiros cristãos — sendo que muitos deles, como Pedro, tinham vivido junto e acompanhado o mestre em vida. Não à toa, ele mesmo se autodenomina apóstolo — e é reconhecido como tal —, usando aqui um termo mais comumente reservado aos 12 primeiros seguidores, os "escolhidos" por Jesus no início de sua missão, que conviveram com ele.

CRÉDITO,FILIPE DOMINGUES/ LAY CENTRE

Basílica Papal de São Paulo Fora dos Muros 

é uma das quatro basílicas papais de Roma

Há um racha inicial desses primeiros anos do que viria a ser o cristianismo. E a queda de braço, vencida por Paulo, deixa claro que ele tinha poder argumentativo sobre os demais pensadores dessa igreja ainda embrionária.

"Ele abriu a Igreja para aqueles que não eram judeus. E esse foi o grande feito de Paulo", lembra Domingues. Era uma questão pertinente na época. Como Jesus era judeu e havia pregado o seu evangelho aos judeus, os primeiros seguidores eram todos previamente judeus — convertidos ao cristianismo. Esse modus operandi fazia com que alguns pensassem, inclusive Pedro — considerado o primeiro papa —, que para se tornar cristão era preciso, antes, ser judeu.

"Paulo tinha um entendimento diferente. Entendia que era preciso abrir para todo mundo", salienta Domingues. "Interpretava que, se Jesus tinha vindo para salvar a todos, o evangelho não deveria ser anunciado antes apenas aos judeus."

Como a visão dele prevaleceu, o cristianismo pôde se espalhar.

Escritor prolífico

De regiões no Oriente Médio a pontos importantes na Europa de então, cada viagem representava a evangelização cristã e o assentamento de comunidades do que viria a ser a Igreja Católica.

Para não perder o contato com tantos povos, Paulo escrevia cartas. Muitas cartas. Eram documentos nos quais consolidava o que ele entendia do cristianismo, por meio de orientações morais, recordações interpretativas das mensagens deixadas por Jesus e recomendações sobre como as lideranças deveriam se comportar.

Mas não era nada simples escrever naquela época. "Tratava-se de um processo lento e muito caro, muito custoso", comenta Zanon. Escrevia-se nos papiros ou nos pergaminhos e, segundo pesquisas, Paulo preferia os pergaminhos, preparados a partir de couro.

Para escrever, Paulo utilizava um instrumento cortante chamado cálamo. As letras eram riscadas e preenchidas a tinta. "Era um processo muito lento. Mesmo assim ele escreveu muito. Não sabemos quantas cartas. Catorze estão na Bíblia, sendo que alguns estudiosos consideram que 9 são dele e outras cinco de comunidades paulinas", diz Zanon. "Mas as próprias cartas trazem referências a outras que não temos hoje, então ele certamente escreveu muito mais. Escreveu muito."

 CRÉDITO,FILIPE DOMINGUES/ LAY CENTRE

"São Paulo fez a passagem para o mundo mais amplo, universal. Deu as bases para que o cristianismo se tornasse universal", afirma o religioso Darlei Zanon, filósofo e teólogo

"Como era um processo caro, tinha de ser feito com cuidado. Ele não podia errar nem reescrever, para não desperdiçar material. Escrevia com as letras muito próximas, muito juntas, ocupando o máximo possível o espaço do pergaminho", detalha.

Essas missivas foram escritas durante suas viagens e, principalmente, nos anos em que ele esteve preso — justamente por praticar o cristianismo. "Ficou parte do período em cárcere domiciliar e tinha a liberdade de escrever. Escrevia para animar as comunidades que ele fundou", conta Zanon.

O religioso lembra de outra característica das cartas de Paulo. "Ele conhecia o aramaico e o hebraico, mas escreveu as cartas em grego, o que deve ter tornado um processo ainda mais lento", aponta.

A escolha do idioma já denotava uma aspiração a universalizar cada vez mais o cristianismo. "O grego era a cultura predominante na época e foi assim que ele espalhou aquilo que era da cultura localizada naquela época onde a gente chama hoje de Terra Santa. Trouxe para a cultura grega, ocidental. Isso foi uma grande abertura. Por isso a Igreja Católica não existiria hoje não fosse o trabalho de Paulo", diz o vaticanista Domingues.

Zanon lembra que "a grande novidade" de Paulo foi a "inculturação do evangelho". "Ele fez uma 'tradução' da mensagem, adaptando os conceitos-chave para a linguagem e a mentalidade greco-romana", analisa. "Soube dar categorias teóricas, e adaptar a mensagem para outras culturas, para as exigências e os problemas concretos das comunidades. Trouxe imagens da guerra, do esporte, da cidade, coisas que Jesus não utilizava em suas parábolas, que eram calcadas em símbolos agropastoris."

"São Paulo fez a passagem para o mundo mais amplo, universal. Deu as bases para que o cristianismo se tornasse universal", afirma ele.

Zanon acredita que se Paulo tivesse vivido em tempos contemporâneos, teria se tornado "um grande escritor, talvez um jornalista". "Ele escrevia muito, conhecia muito os problemas do mundo. Hoje, tentaria dar respostas para as problemáticas atuais, expor as dificuldades e os problemas, denunciar as injustiças", compara.

Morte por decapitação

Todo esse trabalho, é claro, passou a incomodar os romanos, que viam no cristianismo um grupo de arruaceiros que, ao proclamar Jesus como um rei, poderia botar em risco a hegemonia política do sistema.

 CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Tela representando decapitação de São Paulo, de autoria de Enrique Simonet

Há controvérsias sobre quantas vezes e por quanto tempo Paulo teria ficado preso, mas o mais provável é que tenha sido uma vez na atual Turquia e duas vezes, mais para o fim de sua vida, na região da cidade de Roma.

É certo que ele participou presencialmente de um encontro ocorrido entre os primeiros líderes cristãos, em algum momento entre os anos de 48 e 50, em Jerusalém — naquele que é conhecido como o primeiro concílio da história da Igreja.

E acredita-se que tenha ido evangelizar na região de Roma a partir do ano de 60. Ali teria sido preso novamente e, por fim, provavelmente no ano 67, condenado à morte.

"Não se sabe exatamente o dia da morte [a Igreja acabou, por convenção, adotando o dia 29 de junho]. O que temos veio por tradição: ele teria morrido durante as perseguições de Nero [imperador romano que governou de 54 a 68]. Foi decapitado com uma espada na então periferia de Roma", conta Zanon.

Era uma pena capital considerada mais branda, reservada aos cidadãos romanos. "Sua morte teria sido mais digna do que a dos outros cristãos. Os não-romanos, como Pedro, foram crucificados. A decapitação era algo menos doloroso, e Paulo tinha cidadania romana", explica.

No local onde acredita-se que ele tenha sido morto, depois foi erguida uma igreja, hoje a Basílica de São Paulo Fora dos Muros.

Protetor de muitas causas

Curiosamente, apesar de emprestar seu nome à cidade desde a fundação, São Paulo só passou a ser reconhecido como patrono da capital paulista em 2008, quando o cardeal arcebispo d. Odilo Scherer apresentou um pedido formal ao então papa Bento 16.

Mas o santo é tradicionalmente citado como protetor de muitas coisas e muitas causas. Zanon frisa que ele também é patrono oficial de Roma e de Londres, além de ser considerado o protetor dos escritores, impressores e editores — "por uma questão óbvia, já que foi ele talvez um dos maiores escritores da história da humanidade", ressalta.

"Também é o patrono dos evangelizadores e missionários", acrescenta. "E, não oficialmente, também podemos dizer que ele é o patrono dos imigrantes e dos viajantes, porque ele passou grande parte da vida viajando. É o santo da universalidade, conheceu muitas culturas e tem um coração universal."

O religioso ainda lembra que Paulo é acionado "contra as tempestades do mar e os naufrágios" e em casos "de picada de cobra", também conforme a devoção popular. "E padroeiro dos convertidos", diz.

"No mundo atual, ele pode nos ajudar muito porque foi alguém que sempre se abriu ao diferente. Precisamos de tolerância, de abertura ao diálogo, de aceitação das diferenças em busca de um denominador comum", comenta Zanon.

De olho nos problemas contemporâneos, o religioso ainda atualiza Paulo como "um modelo contra as fake news". "Porque Paulo, em suas cartas, era o defensor da verdade. Ele passou a vida toda escrevendo para as comunidades buscando combater a manipulação, criticando as pessoas que tentavam manipular os povos em benefício próprio. Nesse sentido, estava combatendo as fake news, o que hoje chamamos de fake news", acredita.


Por que a juventude brasileira está se tornando cada vez mais evangélica

 Rodolfo Capler 

Veja online

Teólogo Rodolfo Capler analisa o fenômeno da adesão de grande parte dos jovens brasileiros ao segmento evangélico de corte pentecostal

   Foto Jonne Roriz/Veja Jonne Roriz/VEJA

Manaus 09/05/2020 - Cenas de pessoas recebendo oração no em formato “drive-thru” de religiosos da Igreja Evangélica da Visão Celular M12, MIR Centro Sul na cidade Manaus-AM. 

Conforme a pesquisa do Instituto DataFolha, publicada em dezembro de 2016, “três em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais atualmente são evangélicos”. Já os dados da pesquisa de 2020 do DataFolha revelam que há aproximadamente 12,4 milhões de jovens entre 16 a 24 anos que se declaram evangélicos –  13,7 milhões de jovens na mesma faixa etária se identificam com o catolicismo. Levando em conta que a proporção geral de católicos é maior (105,5 milhões), que a de evangélicos (65,4 milhões), e que os evangélicos não param de crescer em números, tornando-se uma “uma vasta nuvem” (segundo definição do pesquisador e pastor Davi Lago), a interpretação dos dados mencionados, nos permite concluir que a juventude brasileira caminha a passos largos para se tornar predominantemente evangélica.

 A adesão dos jovens brasileiros ao segmento evangélico se dá prevalentemente entre aqueles que fazem parte das classes mais baixas do país e que massivamente se filiam as igrejas pentecostais e neopentecostais. De acordo com o Censo Brasileiro, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2010, 60% (25,3 milhões) dos evangélicos eram pentecostais. 

O antropólogo Juliano Spiyer em “Povo de Deus” (primorosa pesquisa sobre os cristãos-evangélicos no Brasil) analisa os dados demográficos observando o sucesso da fé evangélica (sobretudo a de corte pentecostal) entre os mais novos. “Considerando-se a faixa etária dos fieis, enquanto o catolicismo é mais popular entre pessoas com 40 anos ou mais, os evangélicos pentecostais atraem mais crianças e adolescentes”, observou Spiyer. 

Essa massa de jovens se associa às igrejas evangélicas por influência de alguns fatores que se tornaram objetos de estudo entre sociólogos, antropólogos, teólogos e cientistas da religião. Um dos fatores é contextualização da mensagem da fé, que se adapta à realidade sociocultural de grande parte da juventude. 

O jovem brasileiro se sente atraído pela pregação dos pastores pentecostais – que lançam mão de estética e linguagem contextualizadas – como também pela música gospel, que desde a sua gênese, incorpora os mais variados subgêneros musicais populares. Nas igrejas evangélicas, canta-se rap, funk, samba, sertanejo e rock – o que se constitui elemento de apropinquação com as novas gerações. 

Outro aspecto que aproxima os jovens brasileiros da fé evangélica é a forte ênfase discursiva no indivíduo. Segundo os apontamentos das mais recentes pesquisas geracionais realizados no mundo, os membros das gerações Y e Z são muito individualistas e narcisistas. Por essa razão, a mensagem centrada no indivíduo (que é lugar-comum no evangelicalismo brasileiro), cativa boa parte dos fiéis mais jovens.  

Por fim, a presença social das igrejas nas periferias e rincões do Brasil, designa um dos pontos fulcrais de conexão da juventude com a religião evangélica. Conforme o antropólogo Maurício de Almeida Prado, as igrejas evangélicas oferecem às populações mais precarizadas, uma espécie de serviço social informal, ocupando os espaços abandonados pelo poder público, ou seja, elas intermediam conflitos familiares, doam cestas básicas, assistem os dependentes químicos, cuidam dos doentes e promovem a aculturação de uma massa de miseráveis. Esse processo de abraçamento dos mais vulneráveis pelos evangélicos, talvez seja o principal fator ocasionador das conversões da juventude brasileira ao segmento evangélico.

Diante desse cenário religioso que se descortina em nosso país, surge uma importante questão: nos próximos anos o jovem brasileiro continuará se identificando com a fé evangélica? Ao que tudo indica, o crescimento do número de jovens evangélicos tende a aumentar nas próximas décadas não só nas classes mais pobres, como também nos estratos econômicos mais elevados. Os desdobramentos disso serão sentidos não somente na cultura popular – que, emblematicamente, já substituiu bordões católicos outrora correntes como “Nossa senhora” e “Vixe Maria”, por expressões do mundo evangélico tais quais “Só Jesus na causa” e “O sangue de Jesus tem poder” – mas também na organização social da nação, com a promoção de maior igualdade de gênero (visto que entre os pentecostais o número de mulheres é 20% maior do que o de homens), e com o aumento da escolarização da população em virtude da disciplina da leitura conquistada a partir do convívio dentro da igreja.

* Rodolfo Capler é teólogo, escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP


São Brás: o que se sabe sobre o médico da antiguidade que se tornou santo protetor da garganta

 BBC News  

 © Domínio público 

O dia de São Brás é celebrado em 3 de fevereiro

É tradição católica em várias partes do mundo: se é dia de São Brás, é preciso levar as crianças para a igreja.

Durante a missa, em momento oportuno, o sacerdote irá se encarregar de benzer as gargantas de cada um com uma curiosa cruz formada por duas grandes velas apagadas.

A bênção não é privilégio para os filhos. Adultos também a recebem.

Para famílias que praticam o catolicismo e se apegam às práticas que passam de geração para geração, esse ritual tem um significado prático: segundo a fé, os benzidos pela intercessão de São Brás não terão nenhuma inflamação de garganta até o ano seguinte. Ou, se tiverem, as doenças serão leves.

A festa em honra ao santo é no dia 3 de fevereiro, justamente porque é a data em que se acredita que ele tenha sido martirizado, morto por decapitação, no longínquo ano de 316.

E é justamente essa distância temporal que não nos permite ter muitas informações biográficas sobre o personagem.

Entre pesquisadores contemporâneos, não há um consenso, por exemplo se ele nasceu em Roma ou em Sebaste, hoje a cidade de Sivas, na Turquia, na época uma localidade na chamada Armênia Menor.

Também não é possível confirmar se ele realmente veio ao mundo em 264 ou em algum outro ano por volta disso.

Por outro lado, acredita-se que, sim, ele tenha construído sua carreira religiosa e morrido, como mártir, em Sebaste. Muito provavelmente no ano de 316 — embora haja quem defenda que isso ocorreu quatro anos mais tarde.

"A vida e a memória de São Brás foram inteiramente remodelas por legendas e mitificação. Pouco sabemos sobre a história real", aponta o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Dizem os relatos centenários que ele foi bispo e médico especializado em curas de homens e animais", acrescenta ele.

Nesses primeiros séculos do catolicismo, bispos eram aqueles religiosos aclamados como líderes regionais, muitas vezes fundadores de comunidades cristãs e mantenedores das mesmas.

Nesses séculos de antiguidade, profissões não eram bem definidas como hoje — o que nos permite compreender, portanto, que um estudioso de fisiologia cuidasse tanto da saúde de seres humanos como da de bichos.

De acordo com o padre Antônio Lúcio da Silva Lima, autor do livro 'Novena São Brás', o religioso foi um bispo "muito querido pelos fiéis".

"Perseguido pelos romanos [que então combatiam o cristianismo], Brás abandonou o bispado e se protegeu em uma caverna de uma montanha isolada", conta.

Mesmo assim, acabou descoberto e preso pelos soldados de Roma.

"Durante o cativeiro, na escuridão de um calabouço, ganhou de presente de algum amigo um par de velas, com as quais recebia luz e calor", narra o padre.

"É por isso que, na representação iconográfica, o santo aparece portando duas velas."

São as tais duas velas que se utilizam para a bênção das gargantas até hoje.

Mas sua condenação não se limitou à prisão. Segundo os relatos antigos, Brás foi morto por decapitação, como era praxe entre os cristãos dessa época, sob ordens do imperador romano Licínio (265-325).

"Morreu em testemunho de sua fé", salienta Lima.

Sobre a tradição das velas, Altemeyer Junior ainda recorda que na véspera da festa de São Brás a Igreja celebra Nossa Senhora das Candeias — também chamada de Nossa Senhora da Luz.

"As velas entrecruzadas sob o pescoço em rito sacramental ao final das missas sugere a festa do dia anterior", ressalta ele.

Biografia carente de detalhes

No martirológio romano, que narra as histórias dos santos da Igreja, as informações sobre ele são muito sucintas.

"São Brás, bispo e mártir, que padeceu pela fé cristã em Sebaste, na antiga Armênia, hoje Sivas, na Turquia, sob o mandato do imperador Licínio", diz o texto. E só.

"A tradição popular narra que ele fora médico e em dado momento ele resolve tomar a vida eremítica e ainda em vida sua fama de santo começou a se espalhar", diz o pesquisador e estudiosos da vida de santos José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, do Ceará.

"Então, o povo a ele acorria e alcançava graças, obtinha milagres. Naqueles primeiros séculos do catolicismo a escolha do bispo, o líder de uma Igreja local, se dava por aclamação do povo e o povo de Sebaste o aclamou bispo", esclarece Lira.

"Ele aceitou mas teria continuado a residir próximo à caverna na qual se 'escondera' do mundo e dali dirigia a Igreja da atual cidade de Sivas, no centro da Turquia. Por sua fé cristã, foi martirizado", completa.

Altemeyer Junior conta que há relatos de que, nesse período, tanto pessoas quanto animais o procuravam em busca de curas. E ele atendia a todos.

"Ele simplesmente impunha uma benção e havia curas", diz o teólogo.

"Logo, sua fama de santo se espalhou por toda a região da Capadócia, pois ele atendia a todos que o procuravam e muitas vezes as pessoas ficaram curadas de suas doenças do corpo e da alma. Até os animais selvagens conviviam em total harmonia com o santo", acrescenta padre Lima.

O hagiólogo Lira diz que a fonte mais confiável sobre São Brás é a chamada 'Legenda Áurea', um conjunto de narrativas sobre a vida de santos reunidas, por volta do ano de 1260, pelo então arcebispo de Gênova, Jacopo de Varazze (1229-1298).

"Apesar da atemporalidade, posso considerar a narração como fonte, por inexistirem, pelo menos no que conheço, outras", afirma o pesquisador.

"O arcebispo torna escrita a oralidade a respeito de vários santos. Uma verdadeira preciosidade."

"Nela o arcebispo diz que 'Brás era de grande doçura e santidade, o que fez os cristãos o elegerem bispo da cidade de Sebasta, na Capadócia. Por causa da perseguição de Diocleciano, após receber o episcopado retirou-se para uma caverna onde passou a levar vida eremítica. Os passarinhos levavam-lhe de comer e juntavam-se em torno dele, só o deixando depois de ter sido abençoado por ele. Se algum deles estava doente, ia vê-lo e retornava perfeitamente curado'", narra Lira.

O pesquisador conta que Varazze ainda "narra importantes fatos da vida e do martírio de Sã Brás".

"E o que acho mais interessante é algo que ele nos informa na ocasião do martírio do santo e que o faz, espontaneamente, o protetor dos que têm males na garganta", comenta.

A cura da garganta

O texto medieval diz que "Brás pediu então ao Senhor que se alguém invocasse seu patrocínio contra dor de garganta ou qualquer outra enfermidade, fosse atendido".

"E uma voz do Céu respondeu-lhe, dizendo que assim seria", enfatiza o registro.

Altemeyer Junior recorda que há um episódio narrado sobre uma cura realizada ainda em vida que o teria tornado alguém reconhecidamente apto a solucionar problemas do tipo.

"Fato famoso foi salvar a vida de uma criança que tinha presa à garganta uma espinha de peixe. E estava morrendo engasgado. Tornou-se patrono das gargantas e males do pescoço", comenta o teólogo.

O hagiólogo Lira corrobora.

"Num dos muitos relatos da vida de São Brás, vemos os milagres e a história de uma mãe que teria chegado até ele aflita, com o filho agonizante, engasgado com uma espinha de peixe", conta.

"São Brás teria olhado para o céu, rezado e, em seguida, fez o sinal da cruz na garganta do menino e o este ficou bom imediatamente. A partir daí e, principalmente, após o martírio de São Brás, passou-se a usar as velas em forma de cruz para dar a bênção de São Brás", completa Lira.

Essa história é recuperada pela própria oração a São Brás, que lembra que ele restituiu "a perfeita saúde a um menino que, por uma espinha de peixe atravessada na garganta, estava prestes a expirar" e pede que todos tenhamos "a graça de experimentarmos a eficácia" de seu "patrocínio em todos os males da garganta".

Por fim, conforme detalha padre Lima, a prece pede para que o santo ajude a conservar "a nossa garganta sã e perfeita para que possamos falar corretamente e, assim, proclamar e cantar os louvores de Deus".

Isso teria dado origem à bênção contemporânea das gargantas dos fiéis.

"A mão direita de São Brás abençoando relembra o gesto que ele tanto usava quando rezava pelos doentes. Por meio de sua bênção muitos doentes ficavam curados e muitas graças aconteciam", diz Lima.

"As velas na mão esquerda de São Brás, amarradas e em formato de cruz simbolizam a bênção do santo bispo", acrescenta ele, enfatizando que esse gesto relembra a cura do menino engasgado com a espinha de peixe.

"São Brás abençoou o menino e retirou-lhe a espinha. O menino ficou bom imediatamente. Por causa disso, São Brás passou a ser invocado como o protetor da garganta", explica o padre.

O hagiólogo Lira conta que essa tradição do benzimento das gargantas ocorre em boa parte do mundo católico.

Morte e culto

De acordo com os relatos antigos, Brás teria sido torturado e morto a mando do império romano.

"Foi martirizado com pentes de aço para cardar lã de ovelhas e posteriormente decapitado", afirma Altemeyer Junior.

"Ele teria sido terrivelmente flagelado e torturado, sendo por fim pendurado em um andaime para morrer. Como isso não acontecia, primeiro lhe descarnaram os ossos com pentes de ferro. Depois tentaram afogá-lo duas vezes e, frustrados, o degolaram para ter certeza de sua morte", narra Lira.

De acordo com padre Lima, a fama de santidade de Brás, no princípio local, começou a se espalhar ainda na Idade Média, principalmente a partir do século VIII.

No Brasil, a tradição foi trazida já pelos colonizadores portugueses. "O Brasil tinha, e ainda tem, muita carência de santos próprios reconhecidos", aponta o hagiólogo Lira.

"E temos que considerar que há um apelo interessante na figura de São Brás: a cura dos males da garganta."

"Com isso, muitas paróquias foram a ele dedicadas, fábricas, produtos e até municípios", ressalta o pesquisador.


Iemanjá, a divindade africana que ganhou feição branca no Brasil

 BBC News 

Se a água é a substância fundamental para a vida, talvez não haja metáfora melhor para representar a mãe da humanidade.

 © RAFAEL MARTINS/AFP via Getty Images

 Iemanjá é uma divindade originalmente negra

Iemanjá, divindade cuja data é celebrada em 2 de fevereiro, é a rainha das águas e, acreditam os que a cultuam, a figura materna que irmana todas as pessoas.

Em terras brasileiras — ou seja, nas práticas religiosas trazidas por africanos na diáspora forçada durante os séculos de regime escravagista e tráfico de mão de obra compulsória —, o orixá feminino ganhou ainda um significado que remete à ancestralidade.

Afinal, se entendermos as costas brasileira e do continente africano como duas margens do mesmo imenso rio, o Oceano Atlântico, é Iemanjá quem promove a união, por ser ela a divindade das águas.

"Iemanjá é a representação da grande mãe da tradição iorubá", explica o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio, doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Seu nome vem da expressão 'a mãe dos peixes' ou 'a mãe cujos filhos são como peixes'. É considerada a mãe de todos, a que nos prepara para a vida, nos dá a imensidão das águas para que possamos realizar todas as potencialidades", afirma Eugênio. Na língua original, seu nome é Yemoja.

Contudo, atualmente há uma problematização que se torna evidente: se a divindade é originalmente negra, por que sua representação mais comum em terras brasileiras é de uma mulher branca?

A resposta estaria na violência do processo de sincretismo, muitas vezes romantizado como algo inerente a tal "democracia racial".

Dos rios para o mar

Para os que acreditam, ela tem a propriedade de "comandar as cabeças", reger o domínio da consciência.

"Na tradição iorubá, dizem que a cabeça carrega o corpo, então é ela quem traz o equilíbrio emocional e psíquico", prossegue o babalorixá Eugênio.

 © Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr - Agência Brasil

 A representação mais comum de Iemanjá 

no Brasil é de uma mulher branca

"Yemoja é a mãe de todas as águas. Se existe água, existe Yemoja, se nós existimos é porque Yemoja existe. Não há uma cabeça que Yemoja não tocou e cuidou. e não há uma cabeça que Yemoja não possa tocar e cuidar", diz a estudiosa do tema Yasmin Fernandes Sales dos Santos, psicóloga e mestre em sociologia política.

"Iemanjá é um orixá, ou seja, uma divindade africana cultuada a partir do panteão divino dos povos iorubás. Embora, no Brasil, assuma títulos e características de 'rainha do mar', na África, é cultuada na região de Abeokutá, na Nigéria, onde seus cultos se estabeleceram inicialmente nas águas doces do rio Yemoja, entre Ifé e Ibadan", contextualiza o sacerdote de umbanda David Dias, pesquisador em ciência da religião na PUC-SP.

Ou seja: para os iorubás, ela é a divindade dos rios. Essa transposição para os mares é resultado do movimento de diáspora quando, já nos chamados navios negreiros, a ela continuaram recorrendo os "seus filhos".

Dias explica que por ser "orixá das cabeças", ela "concede saúde mental" e "propõe harmonia entre o sentimento e a razão".

"Esta orixá traduz o símbolo feminino das mulheres dos seios fartos, é capaz de alimentar todo o mundo. É a orixá que nutre, que alimenta, gerando abundância e prosperidade às suas filhas e seus filhos", completa.

Eugênio ressalta que todo orixá tem seus arquétipos mas o que sintetiza Iemanjá é o da "grande mãe".

"Todos somos filhos de Iemanjá, ela é a grande mãe do mundo, a representação das águas que, pelos oceanos, unem todos os continentes", argumenta ele.

 © Priscila da Cunha 

O embranquecimento de Iemanjá é visto, por estudiosos atuais, 

como resultado de uma construção racista do século 20

"Ela traz também essa noção fundamental de ancestralidade."

"A mensagem de Iemanjá para a humanidade é de união, de respeito, de igualdade. Todos lembrando que somos filhos dela, somos irmãos", resume o babalorixá.

"Na festa de Iemanjá estão todos, não só os adeptos do candomblé. São pessoas de várias origens, várias crenças e ela abençoa a todos sem nenhuma distinção."

No Brasil

Os estudiosos ouvidos pela reportagem acreditam que a divindade ganhou importância no Brasil justamente por conta do processo de escravização.

Por ter ela esse papel materno e, consequentemente, fazer de todo uma só família, ela foi fundamental para refazer os laços dos escravos separados de seus parentes durante o processo de migração violenta e forçada.

"Em torno dela as famílias se organizam", diz Eugênio.

"Para as religiões de matriz africana, ela foi a possibilidade de refazer, reinventar a família, que no processo de escravização havia sido esfacelada. Em termos simbólicos, Iemanjá representou o compromisso de recriar a família, promover a união na diáspora."

Para o historiador Guilherme Watanabe, pai de santo do terreiro Urubatão da Guia, em São Paulo e membro fundador do Coletivo Navalha, no Brasil o culto a Iemanjá foi a resposta "ao rompimento dos laços familiares e afetivos" causados pelo regime escravocrata.

"Com o sequestro das famílias africanas, há episódios de mortes de familiares ainda nos navios negreiros e a separação deles no desembarque, quando eram encaminhados para locais diferentes de trabalho", pontua.

"Ser filho ou filha de orixá era uma forma de estarem ligados à sua origem ancestral, uma forma de recapitular o passado, reestruturar os laços."

 © Arquivo Nacional 

Celebração a Iemanjá em praia do Rio de Janeiro, no início dos anos 1970

No Brasil, a devoção a ela "extrapola as religiões de matriz africana", ressalta Eugênio.

"Todos os brasileiros de um jeito ou de outro são devotos dela. Ela é a grande mãe do povo brasileiro, faz parte do imaginário. Está profundamente arraigada em nossa formação."

"Há quem diga que Iemanjá é uma santa católica, muita gente confunde e acha isso. Isso é um traço de aculturação que faz parte da formação do povo brasileiro. Vamos juntando elementos", prossegue Eugênio.

Representação

"Ela é uma senhora de ancas largas, que pariu toda a humanidade e todos os orixás. Com seus seios fartos amamentou toda a humanidade", diz Eugênio.

"Dizem que os rios são como o leite de Iemanjá escorrendo em direção ao oceano. Se temos uma mãe em comum também temos elos, os mesmos direitos."

Na questão da representação reside o principal problema da maneira como Iemanjá acabou sendo incorporada ao imaginário brasileiro.

Porque, originalmente uma divindade africana, é natural que suas primeiras e originais representações fossem de uma mãe negra.

E seu embranquecimento é visto, por estudiosos atuais, como resultado de uma construção racista do século 20, que buscou tornar suas feições mais "europeias".

Nesse sentido, uma violência cultural.

"A figura de Iemanjá que está no imaginário coletivo é aquela imagem da mulher branca de cabelos longos com sua túnica azul, se confundindo um pouco com as águas do mar", pontua Eugênio.

"Foi um processo de aculturação que levou à difusão dessa imagem. Tem a ver com sincretismo, com a aculturação.

Para o babalorixá, "isso tem de ser respeitado".

 

© Priscila da Cunha

"Povos diferentes, quando convivem, ou eles sincretizam ou eles se matam. Então é importante respeitar, embora essas coisas tenham sido impostas: um povo é submetido à violência de abarcar uma outra cultura e então acaba assimilando essa cultura".

Outros pesquisadores do assunto têm uma postura mais crítica frente a essa transformação.

Watanabe ressalta que a ideia de sincretismo "apaga os processos históricos que deram origem a esse amálgama de divindades."

Mas reconhece que o sincretismo existe inclusive com tradições indígenas.

"Muitas vezes Iemanjá é confundida com Janaína, que seria a divindade da cultura dos povos originários do Brasil, uma sereia", exemplifica.

Evidentemente que o processo mais dominador e muitas vezes violento dessa mistura se deu mediante o choque desigual com a religiosidade trazida pelos europeus.

"Entender que o processo violento de sincretismo foi útil para que muita sabedorias ancestrais vindas na diáspora sobrevivessem até hoje é fundamental", afirma Santos.

"Mas é fundamental também entender que, diante de tantos outros processos de mudança, nós, sobretudo mais novos, não precisamos do sincretismos como os nossos mais velhos precisaram num outro tempo para dar continuidade ao culto."

Durante o período da escravidão, para conseguirem manter seus cultos, era comum que os africanos e seus descendentes precisassem recorrer a figuras do catolicismo.

"Eles eram proibidos por seus senhores brancos e também pelos religiosos católicos de manterem suas crenças e então uma forma que encontraram para continuar foi disfarçando suas divindades de santos católicos", contextualiza a jornalista Bell Kranz, autora do livro 21 Nossas Senhoras que Inspiram o Brasil.

Em suas pesquisas ela encontrou associações de Iemanjá com diversas denominações de Nossa Senhora.

"Especialmente Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora das Candeias", pontua ela.

Não é por coincidência, aliás, que o 2 de fevereiro é tanto dia de Iemanjá como de Nossa Senhora das Candeias — também chamada de Nossa Senhora da Luz.

 © RAFAEL MARTINS/AFP via Getty Images 

Homenagens a Iemanjá no Rio Vermelho, em Salvador

O arquétipo semelhante também ajudou nessa situação. Para os cristãos, afinal, a figura de Nossa Senhora é a mãe de Jesus.

Especialmente para os católicos, ela também é reconhecida como mãe da humanidade, mãe de todos, senhora da família.

E se você já usou branco numa festa de Revéillon, conscientemente ou não, também participou desse processo de sincretismo.

Esse fenômeno cultural está intimamente ligado ao trabalho realizado para popularizar a Iemanjá em terras brasileiras, realizado pelo pai de santo Tancredo da Silva Pinto (1904-1979), o Tata Tancredo, no Rio de Janeiro.

"Conhecido como o 'papa da umbanda', ele foi quem criou a cultura de celebrar Iemanjá no último dia do ano, quando reunia milhões de religiosos, inspirando brasileiros, independentemente de crença ou religião, a vestirem roupas brancas mesmo sem conhecer o motivo", conta Dias.

"Muitos vestem branco na virada do ano pensando que é para pedir paz, muitos vão até a praia jogar rosas brancas… São rituais macumbeiros, e muitos que têm um pezinho na igreja evangélica ou no catolicismo estão lá realizando esse tipo de ritual. Tudo isso vem da popularização das macumbas", comenta Watanabe.

"Com o processo de sincretismo e apagamento dos cultos de matriz africana no Brasil, os orixás, sobretudo Yemoja, que acabou por ficar muito popular no país, sofreram alterações e processos simbióticos com as características dos santos católicos", complementa a psicóloga Santos.

"Mas vale lembrar que orixá não é santo e que Yeoja não é Nossa Senhora."

Branqueamento de Iemanjá

Há alguns registros que demonstram uma europeização das características de Iemanjá já no século 19, muitas vezes a aproximando de representações de Nossa Senhora.

Mas a imagem que acabou se sobrepondo às outras representações e dominando o inconsciente coletivo remonta aos anos 1950.

Conforme explica o sacerdote umbandista e pesquisador Dias, tudo começou quando uma carioca chamada Dalla Paes Leme afirmou ter tido uma visão de Iemanjá e encomendou a pintura de um quadro com essa representação.

"Curiosamente e, em pouco tempo, criam-se movimentos de promoção do quadro da nova imagem, além de selos postais, eventos, romarias resultantes de um movimento chamado pelo jornal 'Luta Democrática' de 'yemanjismo'", relata Dias.

O pesquisador lembra que ela era "uma aristocrata e publicitária" e acabou fomentando uma tradução de "estética branca para a divindade por meio de uma peregrinação" do quadro aos terreiros de umbanda da época.

 

© Arquivo Nacional 

Para os que acreditam, Iemanjá tem a propriedade de 'comandar as cabeças', reger o domínio da consciência

Segundo Dias, essa tradicional imagem "pode ser considerada o marco do embranquecimento e aculturação da orixá".

"Não por acaso, a fisionomia da 'nova Iemanjá' se dá mediante à sequela que o fenômeno do sincretismo deixa enquanto processo de apagamento e conversão cultural", prossegue.

"A orixá, traduzida pela estética cristã, traz agora o mesmo estereótipo das virgens santas, perdendo completamente seus traços africanos. A partir de então, exclui-se os grandes seios que alimentam o mundo, cobre-se seu corpo, retiram-se as noções daquela que é mãe dos filhos peixes em detrimento da santa virgem que jamais dançou ao toque dos atabaques de umbanda", comenta o sacerdote.

Para Watanabe, a Iemanjá representada como "a tal da moça branca com vestido azul" é um legado de grupos umbandistas conhecidos como "umbanda branca".

"É das imagens que mais circulam, muitos têm uma dessas em suas casas", reconhece.

"Acredito que se trate de uma tentativa descarada de apropriação de uma divindade africana e apagamento de toda uma história e de uma cultura que são negras", argumenta Watanabe.

"Criticamos muito essa imagem. Todos os orixás são negros porque têm uma cultura de origem, um território de origem e esse território é a região de língua iorubá, em grande parte sintetizado na atual Nigéria."

Ele afirma que muitos apregoam que "orixá não tem cor porque é energia".

"Mas isso é uma disforia criada a partir dessas umbandas que foram invadidas por conhecimentos alienígenas, estranhos a elas. Esses esoterismos, essa tentativa da umbanda de se vincular a narrativa do mito da democracia racial, essa tomada da umbanda pelos grupos brancos que corroboram para o embranquecimento da mesma, isso tudo deu origem a essa imagem de Iemanjá branca", defende.

Watanabe define o fenômeno como uma "violência aos povos negros, a cultura negra".

"A imagem deve ser substituída, de fato. Não pode seguir circulando da forma como circula. Simbolicamente é um aviltamento da cultura negra", critica.

Santos concorda e ressalta que a "descaracterização e o esvaziamento racista" feito com a orixá é um problema.

"Essa Yemoja branca, com cabelos lisos, longos, magra, recatada, mansa e do lar que é, na verdade, uma imagem europeia cristã, não dá conta de quem Yemoja é e de quem ela pode vir a ser, porque Yemoja é isso: possibilidade", diz.

Dias acrescenta que o "processo de sincretismos" sempre é visto "como um fenômeno de dominação".

"Independente das relações e das trocas por ele produzidas, sempre haverá uma cultura de dominação sobreposta a uma cultura dominante. A invenção da imagem de Iemanjá traduz um Brasil que vivemos hoje em que, feito as redes sociais, adiciona filtros para tornar as imagens 'mais aceitas e palatáveis' pela sociedade que teima em manter o seu pseudo-status antirracista", argumenta ele.

"Todavia, há algo de curioso em tudo isso: não se encontram traduções de divindades de outras culturas tão facilmente quanto as africanas. Nunca se viu uma imagem de Sidarta Gautama, o Buda, enquanto um homem negro, de dreadlocks e brincos nas orelhas. Não se colocam mantos e retiram-se as insígnias hindus de Shiva. Por outro lado, quando se questiona a identidade tão quanto a cor da pele de Cristo, o clero se levanta em defesa de uma tradição inventada para apagar a existência de um povo."


Reação de Bento 16 a investigação sobre abusos é ultrajante

 Christoph Strack 

Deutsche Welle

Relatório de 1.900 páginas que faz um balanço do horror de abusos de menores aponta inação do papa emérito quando ele era arcebispo de Munique. E a resposta dele é trágica, escreve Christoph Strack.

 Foto: maria grazia picciarella/infophoto/picture alliance

Cardeal Reinhard Marx (de preto) é arcebispo de Munique

 desde 2007. Ratzinger o foi de 1977 a 1982

Antes de Joseph Ratzinger se tornar papa, em abril de 2005, os críticos o chamavam de "cardeal blindado". Alguém agiu resolutamente e com frieza em temas relacionados a teologia e Igreja. Logo após sua eleição, seguiram-se relatos de que o homem supostamente blindado podia rir, era até sensível - algo que causou espanto por todo lado.

Agora, Joseph Ratzinger recebe mais um atributo. Um dos advogados cujo escritório lidou durante muitos meses com abusos na antiga arquidiocese de Ratzinger em Munique atestou ao ancião de quase 95 anos "uma maneira muito concreta de agir". Uma pá de concreto contra a acusação de ter acobertado abusos sexuais.

"Balanço do horror"

As aproximadamente 1.900 páginas compiladas por um escritório de advocacia de Munique sobre o tratamento dado a casos de abuso sexual pela arquidiocese de Munique e Freising são um "balanço do horror", repetiu literalmente um dos advogados várias vezes. Os grossos arquivos são também um documento da história da Igreja − eles representam uma nova dimensão, uma nova etapa no esclarecimento.

Seis arcebispos encabeçaram essa arquidiocese desde 1952. Todos eles já haviam sido cardeais antes ou foram elevados a cardeais ao ocuparem o cargo. Todos os seis, sem exceção, foram considerados culpados em número variável de condutas claramente incorretas ao lidar com casos de abuso sexual. Três dos seis ainda estão vivos. E, de 1977 a 1982, Joseph Ratzinger foi arcebispo de Munique, tendo depois continuado sua carreira em Roma e ascendido ao trono de São Pedro como Bento 16 em 2005. É por isso que todo o mundo católico parecia olhar enfeitiçado para Munique nesta quinta-feira.

Considerando os cinco anos de Ratzinger na arquidiocese, os especialistas falam de quatro casos de má conduta nos quais o arcebispo deveria ter agido mas não o fez. Por exemplo, no caso de clérigos cujos atos de abuso eram conhecidos e continuaram com sua função pastoral.

O próprio Ratzinger se posicionou em uma declaração de 82 páginas, na qual rejeita "alegações", afirma "não ter sabido" ou não se lembrar concretamente. E nega firmemente ter participado de uma reunião na qual foi discutido um caso particularmente desagradável de acobertamento. No entanto, os especialistas provam com detalhes confiáveis que Ratzinger estava lá sim.

A própria Igreja não pode analisar seu passado

A carta de Ratzinger é um documento ultrajante e, ao mesmo tempo, trágico. Não se quer mais lê-la depois que este grande teólogo explica que, como pré-requisito para os procedimentos do direito canônico, seria exigido "um delito consumado destinado a despertar o desejo sexual". Atenção: estamos falando de lidar com menores de idade.

Quatro pontos resultam das revelações:

1 − É importantíssimo que os juristas tenham abordado muito explicitamente a importância das vítimas, os sobreviventes da violência sexual, lhes agradecido, reconhecido sua coragem, sua abertura. Qualidades que eles não atribuíram a nenhum clérigo. E eles têm razão em exigir a criação de um gabinete de ouvidoria para representar os interesses das vítimas. É uma questão de lidar apropriadamente com elas, o que os religiosos dificilmente podem fazer.

2 − É importante observar as paróquias nas quais os sacerdotes infratores trabalharam e às quais a Igreja deveria prestar muito mais atenção. Congregações, amizades, famílias já caíram em descrédito e desapontamento. Aqui também a Igreja está pecando contra sua base.

3 − A Igreja obviamente não pode revisar seu passado ela própria – a Justiça estatal deve intervir de forma mais decisiva. Isto é demonstrado não apenas pelo documento frio de Joseph Ratzinger. Dois dias antes da publicação da perícia de Munique, pela primeira vez foi julgado um arcebispo em Colônia − outro foco de acobertamento e apaziguamento eclesiástico.

E ele foi testemunha. Uma testemunha no processo contra um suposto sacerdote infrator. O dignitário, Dom Stefan Hesse, arcebispo de Hamburgo, apresentou-se subitamente diante do juiz e teve que responder de forma concisa, precisa e − de acordo com os presentes − também de forma mansa. Isso mostra que os advogados ou juízes do Estado devem fazer avançar o esclarecimento. O Estado deve, se assim o desejar, assumir a tarefa de esclarecer as acusações. Isso também para que as vítimas não tenham mais que se arranjar de alguma forma com os perpetradores ou com a organização dos perpetradores.

E finalmente:

4 − Esta Igreja clerical e episcopal, que se esforça para encobrir sua sujeira, não é mais a Igreja do presente. Se se pode perceber uma linha nas declarações ocasionalmente estranhas do papa Francisco, é o esforço de manter vivo o anseio por Deus. E a Igreja? De alguma forma, isso também aparece. Mas a exaltação dos dias passados já ficou para trás. A Igreja Católica dos padres será capaz de lidar com isso?

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Christoph Strack é redator da DW e especialista em religião. O texto reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.


O que dizem budismo e hinduísmo sobre carma e reencarnação

 BBC News 

O Buda dizia que certas coisas são impensáveis e impossíveis de serem resolvidas, mesmo que as pessoas tentem refletir muito sobre elas.

 © Getty Images


"Uma delas é tentar entender a lei do kamma ou karma, outra é especular sobre a origem do universo — se foi criado ou não", explica o monge budista Bhikkhu Nandisena à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Kamma é o termo em páli, a língua relacionada ao sânscrito pela qual o Buda se expressava. Karma é o termo em sânscrito. O conceito faz parte da descoberta de Buda da "realidade última", uma realidade "inefável", diferente da realidade convencional.

O carma, e também a reencarnação, são conceitos complexos e que variam de acordo com diferentes tradições do budismo e do hinduísmo. A BBC News Mundo buscou explicá-los com a ajuda de dois pesquisadores — mesmo considerando as limitações nesta compreensão, segundo disse o próprio Buda.

No budismo

Siddhartha Gautama, o Buda, nasceu há cerca de 2.500 anos na realeza do que hoje é o Nepal.

Ele deixou uma vida de privilégios e luxo e entrou em um processo de profunda transformação espiritual que durou vários anos.

Estima-se que o budismo tenha hoje mais de 370 milhões de seguidores em todo o mundo, distribuídos em várias escolas — como a Theravada, à qual Nandisena pertence.

O monge explica que, de acordo com o Buda, existem três portas de ação: o corpo, a linguagem e a mente.

"Por meio da linguagem e do corpo, interagimos com os outros e podemos fazer boas ações ou causar danos e sofrimento a outros seres sencientes."

 © BBC 

O monge budista Bhikkhu Nandisen, que conversou

 com a BBC News Mundo, pertence à escola Theravada

A da mente é uma porta privada que leva ao corpo e à linguagem.

"É por isso que parte da ética no budismo tem a ver com as portas do corpo e da linguagem, que são as portas, digamos, públicas", diz o monge.

"Cada vez que realizamos uma ação através da porta do corpo, da linguagem ou da mente, geramos o que é chamado de kamma."

Segundo disse o Buda, bilhões de momentos de consciência surgem e cessam em um piscar de olhos.

"Imagine que numa ação verbal ou corporal, que pode durar um determinado período de tempo, estão envolvidos bilhões de momentos de consciência, que são o que, em nosso estado mental, nos impulsiona a realizá-la", diz o estudioso.

"Cada um desses momentos é o que poderíamos chamar de unidade kamma ou unidade kammica e, tecnicamente falando, isso é o kamma."

"Chamamos isso de volições e, de acordo com a descoberta do Buda, cada um desses estados volitivos que acompanham as ações gera uma potencialidade."

Ou seja, cada vez que dizemos, fazemos ou pensamos algo, há uma intenção — e geramos uma potencialidade.

Quando tomamos uma ação, por exemplo de generosidade, compaixão ou algo prejudicial a outros seres, uma potencialidade é produzida.

"Essa potencialidade permanece como tal até que as circunstâncias ou condições sejam satisfeitas para que um resultado seja produzido."

É por isso que os textos falam do kamma "assíncrono", porque o efeito da ação — que pode ser mental ou material — pode ser retardado.

Reconexão

 © Getty Images 

No budismo, a cada vez que dizemos, fazemos 

ou pensamos algo, geramos uma potencialidade

O monge ressalta que existem certas propriedades ou fenômenos materiais que estão na base das consciências que temos.

"Cada um de nós tem seis tipos diferentes de consciência: a consciência do olho, a do ouvido, do nariz, da língua, do tato e da mente. Todas elas dependem de propriedades materiais para surgir."

"De acordo com o budismo, no momento em que o espermatozoide e o óvulo se unem, há uma implantação externa, separada da matéria do pai e da mãe, que é o que chamamos de reconexão."

É nesse momento que surge "o suporte da consciência", de cuja evolução se desenvolvem as diferentes habilidades sensoriais.

Enquanto dava essas explicações, o monge me perguntou: "Você é igual a quando era criança?"

Ele mesmo respondeu: "Se me perguntam, eu digo: não sou o mesmo, mas também não sou outra pessoa. Se não fosse por aquela criança, eu não estaria aqui agora."

Ainda que as propriedades materiais da consciência eventualmente desapareçam, o que é acompanhado pela morte, há uma continuidade da consciência mental.

Nandisena diz que, embora alguns ramos do budismo usem o termo reencarnação, ele não segue esta escolha.

"Tecnicamente, usamos o termo reconexão, que é a tradução direta do páli. Talvez usar renascimento seja um pouco mais compreensível."

"Não usamos o termo reencarnação porque literalmente não há nada que aconteça de um momento para o outro. Há uma continuidade, mas não uma identidade. Não há nada da consciência anterior que seja transmitido como uma essência para a próxima consciência."

O monge resume que, "quando falamos sobre reconexão, estamos falando sobre o efeito de kamma".

© BBC 

Representações de Budas em Mianmar

Mas muitas pessoas falam coloquialmente do carma ao se referir a uma consequência em suas vidas.

"Na verdade, carma é literalmente a ação; a relação entre essa ação e seu resultado é o que se chama de lei do kamma ou karma."

"Podemos entender a lei do kamma do ponto de vista da responsabilidade nas nossas ações, a parte ativa: ou seja, quando alguém faz algo errado, é responsável por causar dano a outro ser."

"Essa parte da lei do kamma em relação à causa não é tão difícil de entender; o que é difícil de entender é a relação entre causa e efeito."

"Quando algo acontece a alguém, como estabelecer uma ligação entre o efeito e a causa? Isso é impossível, mas mesmo assim, o Buda diz que, uma vez que somos donos das ações, também somos donos do que nos acontece."

"Essa é a parte mais difícil de aceitar da lei do kamma. De acordo com os ensinamentos de Buda, isso é chamado de o Entendimento Correto."

No hinduísmo

Doutor em filologia sânscrita pela Universidade Hindu Banaras (Índia), Óscar Pujol explica que, nas principais correntes da filosofia e do pensamento indiano antigo, "há um consenso absoluto sobre a existência da reencarnação e do carma".

"É engraçado como na Índia antiga isso era tão óbvio que quase não precisava de qualquer prova", explica o autor.

Hoje, estima-se que mais de 900 milhões de pessoas seguem o hinduísmo no mundo. Esta é a religião majoritária na Índia e no Nepal.

 © Getty Images 

Peregrinação no rio Ganges, Índia

Diferente de muitas outras religiões, o hinduísmo não tem um único fundador, nenhuma escritura e tampouco um conjunto de ensinamentos comumente aceitos.

Trata-se de uma das religiões mais antigas do mundo. Seus elementos datam de muitos milhares de anos. Mas alguns estudiosos preferem referir-se ao hinduísmo como "um modo de vida" ou "uma família de religiões", em vez de uma única religião.

Uma lei básica

Pujol explica que o carma, na perspectiva hindu, é uma espécie de lei "própria do mundo material".

"Muitas pessoas já disseram: é como o conceito de gravidade na física."

"O carma é algo tão simples quanto a lei de causa e efeito: existe uma causa, ela produz um efeito que, por sua vez, se torna a causa de outro efeito."

E essa cadeia contínua de causas e efeitos é o que constitui "a existência do universo e do ser humano". Há nisto também uma dimensão moral, porque implica que toda ação humana "terá uma consequência".

"Portanto, uma ação positiva terá um resultado positivo e uma ação negativa terá um resultado negativo. É simples assim."

Pujol explica que o conceito de karma está relacionado à ideia de que o ser humano tem três corpos. Esta divisão também é fundamental para entender a reencarnação.

"Mas vou me concentrar apenas em dois deles: um (corpo) que todos nós vemos, o material; e um corpo sutil."

Seguindo a escola Vedanta, o corpo sutil tem 17 partes: os 5 sentidos da percepção; as 5 capacidades de ação (relacionadas ao movimento); os 5 ares vitais (aqueles que fazem a circulação e a respiração funcionarem); a mente e o intelecto.

O corpo sutil é "de certa forma uma espécie de alma", diz Pujol, embora ele esclareça que não é todo o corpo sutil que reencarna, mas apenas uma parte.

"Esta parte do corpo sutil, que reencarnou com a morte, é que se torna o que os atos bons ou maus determinarem."

"Quando a parte física morre, então os sentidos são retirados da mente, os ares vitais são retirados, até que apenas a parte do corpo sutil que vai reencarnar permaneça."

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Livro hindu escrito em sânscrito

O intelecto, junto com o reservatório cármico, a citta, é o que migrará para outro corpo.

"A citta é como a parte em que ficam gravadas todas as ações que realizamos na vida. É como o disco rígido, tudo fica armazenado lá".

Nesse processo, também fica a parte da mente entendida como um processador de dados que nos permite conhecer e perceber o mundo.

"A impressão latente é o que se produz na mente quando temos uma percepção, e é a matéria-prima da memória. Por isso, nossa mente é composta por um número infinito de impressões latentes, que podem ser modificadas de acordo com a experiência."

Essas impressões "são o que, em última análise, determinam a reencarnação: se o karma é bom, elas têm carga positiva e, se for mau, têm carga negativa".

Já o "sentido do eu" não reencarna.

"É por isso que na nova vida não sabemos quem éramos antes. Perdemos nosso senso do antigo eu."

O autor esclarece que tanto o carma bom quanto o mau devem ser "abandonados", pois "estamos acorrentados ao bem e ao mal".

"Tanto as boas quanto as más ações nos prendem e, para nos libertarmos, temos que superar tanto o bom quanto o mau karma por meio do karma yoga", diz, referindo-se à prática hindu que envolve servir aos outros abnegadamente.

Reencarnações 

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 Templo Hoysaleswara, na Índia

Embora haja muitos debates, explica Pujol, "normalmente admite-se que pode haver reencarnação em qualquer tipo de ser, não necessariamente humano". E o ciclo é "infinito".

Por se tratar de uma lei tão inequívoca, "a grande obsessão da literatura sânscrita do pensamento antigo é justamente como se livrar do karma".

"É algo possível, mas muito difícil porque vivemos prisioneiros da ignorância. Superar essa ignorância essencial é muito complicado", explica.

"O karma é o destino. No sentido profundamente moral, ele diz que você domina o que acontecerá com você no futuro se agir de acordo agora."

Pujol pondera que, embora sob alguns pontos de vista o carma possa parecer "um pouco cruel", considerando todo o mal que há no mundo, ele tem um aspecto "profundamente ético e libertador".

"Somos donos do nosso destino", diz o estudioso do hinduísmo.